A Rede de Dormir Relaxa o Corpo, Acalma a Mente e Ajuda a Pensar na Vida
Enviado em 14 de Julho de 2009
Publicado por Palmieri
“Quer coisa melhor?” “Se deixar, eu passo o fim de semana inteiro aqui”. Instantes depois de se deitar, curvado levemente como se fosse um feto, livre de suas tarefas terrenas, pode-se enfim se entregar ao prazer. “A rede cria o espaço do sono. Ela suspende o indivíduo, aproxima-o do espaço celeste. Numa rede está o contrário do fazer: o não-fazer”.
No Brasil de outrora, dormir em cama era coisa de gente chique. Era o sonho de luxo de Sinhá Vitória, a mulher de Fabiano, em Vidas Secas, de Graciliano Ramos. O povo brasileiro só dormia em rede. Nela viveram os grandes guerreiros tupinambás, roncaram os jagunços de Antônio Conselheiro, de Canudos, os cangaceiros aperreados de Lampião. E ainda hoje a rede acolhe a brava gente sertaneja.
“Mãe véia, mãe véia”, chamavam-na os viajantes dos séculos passados, ao sentirem a falta do afeto do abraço da rede, comparado ao colo de mãe, ao deparar com a cama dos hotéis sem apoio nas paredes para suas redes. Muitos não admitiam outra maneira de dormir. Outros ainda não admitem. Dá para imaginar uma viagem pelos rios da Amazônia sem as redes penduradas nos barcos gaiolas? E uma pousadinha no Nordeste sem ela para balançar na varanda? Pois foi na rede que boa parte da cultura brasileira foi forjada: as canções de Dorival Caymmi, os romances de Jorge Amado.
Benção no ar
“Um leito suspenso não aparece em paragem alguma deste mundo antes que Cristóvão Colombo pisasse a areia de Guananaí e Pedro Álvares Cabral a praia brasileira de Porto Seguro”, escreveu Cascudo em seu livro Rede de Dormir – Uma Pesquisa Etnográfica. Segundo Cascudo, na África e na Ásia “dormia-se em esteiras de palha ou peles de animais”. Foi só na América que os europeus encontraram os homens balançando sobre as redes.
Pois os europeus logo caíram de amores pela rede. Afinal, não havia nada melhor para levar na sacola, junto com a farinha de mandioca, para desbravar aquela terra virgem. Nela dormiram e trabalharam viajantes naturalistas dos séculos 19 e 20. Numa época em que se viajava sertão afora em carros de boi, a leveza das redes era uma bênção.
No século 16, a rede estava difundida em quase todas as aldeias do Brasil. Sua forma era mais rústica, trançada apenas com grandes malhas, parecidas com as de pesca. Só ganhariam os luxos e balangandãs de hoje com a chegada das portuguesas, que lhes aperfeiçoaram a técnica com a renda dos teares, dando-lhes as franjas e varandas e tornando-as mais macias e ornamentais.
Balanço criativo
Na capital mais quente do Brasil, Teresina, existe a expressão bró-bró, para apelidar o período de calor mais causticante do ano: os quatro meses que terminam em “bro”, setembro, outubro, novembro e dezembro. “Nessa época, a rede fora de casa é a melhor companheira para as noites de suor”, diz Zebinha um apaixonado por rede. “A regra sertaneja é pendurar a rede bem alto, de modo que apenas a mão encontre o chão. Queda ruim é de rede baixa. De rede alta é possível aprumar o jeito do cair”, diz. Outro detalhe: a rede deve ficar folgada. “O cabra prefere o diabo à rede tensa.” Segundo Zebinha, a melhor rede é a chamada de sol a sol, porque é grande, cabe um casal dentro e dá para dormir numa boa. Mas o próprio expert admite: “Rede boa é aquela que não dá vontade de levantar”.
A nação nordestina, a exemplo de Zebinha, é rica em criar metáforas da rede com a vida. Tem conselho: “Olha lá onde você vai armar a rede”. Elogio: “Fulano que sabe armar a rede é cara esperto”. Esta meio machista: “Não há rede igual nem mulher diferente”. Para viajantes inveterados: “Sicrano vive com a rede nas costas”. E, ainda, uma boa para quem precisa, digamos, meditar: “Ah, vá pedir conselho à rede”.
E será que a rede ajuda mesmo a pensar? “O balanço suave da rede trabalha a bipolaridade do cérebro, estimulando ao mesmo tempo o lado direito e o esquerdo, ou seja, o hemisfério subjetivo e o objetivo”, afirma Gil Kehl, terapeuta ayurvédico de São Paulo, que indica a rede para bolar projetos. “Esse é um momento em que ficamos bastante conscientes e presentes, numa espécie de estado de lucidez”, diz. Para ele, a rede ainda tem o valor de ser ortopédica. “Ao contrário da cama, ela encosta todos os apoios da coluna, aconchega e ajuda a relaxar os nervos e o corpo”, diz. Para quem quer dormir na rede, Gil, que já passou um ano na Bahia dormindo em uma, recomenda que o faça de atravessado, “o que deixa a coluna mais reta e confortável”.
Para Câmara Cascudo, não dá nem para comparar a rede com a cama. “O leito obriga-nos a tomar seu costume, ajeitando-se nele, procurando o repouso numa sucessão de posições. A rede não: ela toma o nosso feitio, contamina-se com os nossos hábitos e repete, dócil e macia, a forma do nosso corpo. Do jeito que a gente deita ela se molda.”
Mas, mesmo sendo usada só nos momentos de descanso e deleite, a rede lembra o gesto de ninar, o colo, o aconchego. Eta vidinha boa essa da rede. Quantos brasileiros não foram criados no ritmo? Um deles, com certeza, foi o mestre Câmara Cascudo, que termina seu livro com uma foto sua na mesma posição em que ele, eu, o Zebinha do Piauí, e outros milhões de brasileiros tanto adoramos ficar. Quer coisa melhor?
Resumo do texto de Eduardo Petta para a revista Vida Simples. Para ler na íntegra, clique aqui!












